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Dizem que coaching não tem nada a ver com terapia. OK mas, na informalidade, as duas práticas são, sim, parecidas. Assim como na ausência do terapeuta a pessoa procura alguém de confiança para desabafar, na falta do coach, ela recorre a um colega mais experiente ou chefe para ajudá-la a descobrir suas potencialidades. Às vezes, nem precisa ir atrás, porque o coach informal (e o ombro amigo) aparece quando menos se espera. Foi assim com o ator e produtor Claudio Fontana, o dr. Rogério da novela Ciranda de Pedra, da Globo.
“No meio artístico é muito comum a presença do coach informal”, diz Claudio. Formado em Economia e Administração pela FEA/USP, em 1990, com quase 30 anos, ele tinha uma carreira de projeção no departamento de Marketing de uma multinacional. O salário era muito bom, ele gozava das mordomias cobiçadas no alto escalão e ia se mudar para a Inglaterra, onde assumiria o cargo de gerente de Marketing. Havia, inclusive, passado dois meses lá, numa espécie de adaptação para a mudança que poderia ter sido definitiva, não fosse o diretor de teatro Gabriel Villela ter cruzado o seu caminho.
Cláudio Fontana não imaginava ser ator e estava certo de que havia encontrado no marketing o seu caminho. Atleta, treinava no Clube de Pinheiros, em São Paulo e, um dia, depois de uma discussão com seu técnico, viu um cartaz anunciando um curso de teatro, foi lá e se inscreveu. “Minha intenção era ter uma atividade, um hobby, assim como os outros alunos do curso, que eram médicos, engenheiros, professores”, conta Claudio. “As aulas eram à noite, então não atrapalhava o meu trabalho.”
Acontece que o professor era o Gabriel Villela que, logo, percebeu naquele profissional de marketing o talento de ator. Em 1990, quando foi montar a premiada peça Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu, Villela convidou Claudio para atuar ao lado de Laura Cardoso. Ele chegou para mim e me disse: “Aceite esse convite, você tem talento e isso pode dar certo.”
Claudio chegou para seu gerente e comunicou a decisão. “Ele não acreditava, mas ao mesmo tempo me deu os parabéns. Disse que eu estava provando ser um bom profissional de marketing porque tinha coragem de arriscar.” Cláudio arrebentou nos palcos. Já na estréia, faturou o prêmio da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp) de ator revelação. Dali, foi direto para a novela Deus Nos Acuda, da Globo, a convite do autor Silvio de Abreu e do diretor Jorge Fernando – eles viram o na peça e acharam que ele tinha talento para a tevê. “Esses dois também foram meus coachs, pois me orientaram, me aconselharam e descobriram potencialidades em mim.”
Na produção de espetáculos Claudio está desde 1996 e se revelou, também aí, um ótimo profissional. Começou produzindo para ele mesmo e seus amigos atuarem. Logo estava assinando peças como Salmo 91, de Dib Carneiro Neto, prêmio Shell de melhor autor e melhor ator do ano. Atualmente, está produzindo Por Um Fio, de Drauzio Varella, Calígula, que vai estrear com Tiago Lacerda e Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, além de um espetáculo de Elias Andreato em homenagem a Paulo Autran e de Andaime, de Sérgio Roveri, em turnê pelo País.
Cláudio acredita que deve grande parte do sucesso como produtor à carreira anterior. “Até hoje eu gosto muito do marketing. Ele me ajuda a viabilizar um espetáculo.”
Não é só no meio artístico que o coach informal aparece para iluminar os caminhos do sucesso. O próprio Cláudio considera que seu ex-chefe dentro da multinacional também fez esse papel em sua vida. “Quando pedi demissão, ele me encorajou. Até hoje ele vai ver todos os meus espetáculos.”
Há mais de 20 anos, o primeiro chefe da consultora de carreira e coach Sandra Cruz, 44 anos, a fez enxergar que ela seria mais feliz ensinando dentro de uma empresa do que numa sala de aula. Sandra estava começando a faculdade de Letras, no Rio, e arrumou o emprego de secretária numa empresa de construção civil e de turismo. “O objetivo era ganhar um dinheiro para comprar meus livros”, conta. “Aos poucos, meu chefe foi me mostrando que eu tinha dons administrativos, especialmente para a gestão de pessoas e processos. E foi me incentivando. Ele fez com que eu desenvolvesse novas competências, o que me abriu possibilidades. Nunca havia pensado que eu poderia lecionar num escritório!”
Sandra diz que as lições que aprendeu com o chefe, Luiz Felício Bustamante, são as que emprega ainda hoje na empresa em que trabalha, a BSP Career. “Ele já tinha uma visão muito moderna sobre gestão, me chamava na sala dele e me pedia para ser sensata, educada no trato com as pessoas. Aprendi coisas que não eram comuns naquela época.”
Quando saiu de lá, quatro anos depois, Sandra foi trabalhar como gerente numa multinacional. Hoje, está certa de que a carreira administrativa foi uma decisão mais do que acertada.
Mas será que o coaching informal pode substituir, com eficiência, o formal dentro das empresas? Fátima Motta, sócia-diretora da FM Consultores, acha que não. “O formal tem um objetivo claro e a forma de alcançá-lo é estabelecida, de comum acordo, sem que os princípios e crenças do coach interfiram. O informal é um amigo que, baseado na própria experiência, dá conselhos sobre um determinado assunto.”
Ator em destaque atualmente por causa do filme Era Uma Vez..., de Breno Silveira, Thiago Martins tem dito que deve tudo o que é ao irmão mais velho, Carlos André. Criados no Morro do Vidigal, favela do Rio, Carlos foi o primeiro da família a descobrir o teatro, freqüentando o grupo Nós do Morro, projeto que busca a valorização da auto-estima da comunidade e a melhoria de sua qualidade de vida por meio da arte. Um dia, Thiago manifestou o desejo de acompanhar o irmão e Carlos lhe deu todos os conselhos, dicas e ensinamentos que aprendera. Thiago contou em várias entrevistas que o irmão o fez entender o significado mais autêntico do teatro. Talvez por isso não tenha se deslumbrado com o sucesso na tevê (o Lídio em Desejo Proibido e o Tadeu, em Belíssima) nem se rendido ao estrelismo agora que é protagonista de um dos maiores sucessos atuais do cinema nacional.
Fátima lembra que os conselhos podem orientar de maneira positiva, mas há de se ter bom senso para recebê-los. E para dá-los. Segundo ela, o coach formal não aconselha e sim leva a pessoa a pensar sobre a decisão a ser tomada. “Quando o ego entra em cena, o conselho pode perder sua efetividade e o coaching virar um palpite com objetivos questionáveis”, diz a profissional.
Mesmo na informalidade, Fátima defende que os conselheiros tenham o mínimo de preparo. “Seria muito bom se as pessoas realmente se dispusessem a se ajudar e a compartilhar experiências. No entanto, para essa prática ser mais efetiva seria fundamental que se preparassem por meio de programas de capacitação específicos como, por exemplo, o de Líder Coach, que não é exatamente para formar um coach, mas pode trazer informações básicas que potencializem e ajudem o coaching informal.”
fonte: CanalRH - www.canalrh.com.br


