

| acesso área restrita: |
Um país em recuperação. É assim que Angola se apresenta a quem chega a suas terras. Segundo estimativas, em 26 anos de guerra civil, dois milhões de pessoas foram desabrigadas e outras 500 mil, mortas. Cidades foram dizimadas e a soberania da nação, altamente prejudicada. Nesse turbilhão de acontecimentos, há uma lança que aponta para o futuro por meio dos inúmeros canteiros de obras, presentes por todos os lados. Por outro lado, identifica-se, ainda, um olhar melancólico do passado, com a evidente constatação da pobreza e das gritantes diferenças sociais.
O Brasil tem tido participação ativa nesse renascimento angolano. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, o País é responsável por 12% das importações realizadas por Angola. Embora não haja estatísticas exatas sobre a participação de brasileiros e de empresas brasileiras na economia angolana, a Associação de Empresários e Executivos Brasileiros em Angola (Aebran), fundada em 2003, calcula que ela seja superior a US$ 5 bilhões.
A atuação tupiniquim, no entanto, não se restringe à comercialização de produtos. A mão-de-obra brasileira tem sido cada vez mais numerosa no país africano. “O Brasil, junto com a China, é um dos países que mais enviam trabalhadores para lá”, afirma Mariana Barros, sócia-diretora da Differänce, consultoria especializada em treinamentos interculturais.
A entrada dos brasileiros em Angola mantém algum paralelo com a vinda de executivos europeus e norte-americanos ao Brasil no passado. “Assim como os brasileiros hoje, esses imigrantes vinham ao Brasil sem conhecer o lugar para onde estavam indo, com poucas informações a respeito da cultura e das dinâmicas locais. Era uma aventura”, diz Mariana. A Internet, hoje, auxilia na coleta de dados sobre o País, mas as realidades são tão distantes que só mesmo in loco é possível ter uma dimensão mais apurada do que lá acontece.
Foi o que aconteceu com o médico Fábio Luis Vieira. Quando recebeu a proposta para trabalhar em Angola, há dois anos, ele foi buscar informações sobre o lugar. Tomou conhecimento da guerra civil, que deixou um legado arrasador para o povo, mas mesmo assim ficou admirado com o que viu. “É surpreendente o quanto a história do Brasil tem relação com tudo isso aqui e o quanto sabemos pouco sobre”, conta. “Além disso, assustam as dificuldades que o povo angolano tem enfrentado; elas são maiores do que pode alcançar a criatividade de alguém que só viveu no Brasil”, complementa.
De acordo com Vieira, que atua como consultor do Ministério da Saúde, o maior desafio pessoal que enfrenta em sua rotina é a relação que os angolanos estabelecem com estrangeiros. “Entendo que isso tem a ver com a forma opressora e exploradora que os brancos tiveram na história de Angola e, apesar da sociedade angolana estar hoje em outro momento, com a sua soberania bastante fortalecida, ainda vemos resquícios deixados pela história de dificuldades no relacionamento entre brancos e negros”, relata. Na prática, isso se traduz em alguma rispidez inicial. “Algo completamente contornável, a partir do momento em que se percebe o povo angolano é um povo dócil, pouco malicioso e se defende como é possível”, explica.
Diante de tantas dificuldades, contrapartidas profissionais que motivem executivos a atravessar o oceano e ingressar num mundo novo e desconhecido precisam ser compensadoras. E são. “Via de regra, as propostas são muito tentadoras, com benefícios diferenciados”, diz Mariana. Essa realidade, impensável anos atrás, está alicerçada no favorável momento econômico pelo qual atravessa o país. Dados da Organization for Economic Co-operation and Development (OECD) mostram que a economia angolana expandiu, em 2007, 19,8%, estimulada principalmente pela construção civil, agricultura e serviços financeiros. Para este ano, a previsão de crescimento é de 11,5% e, para 2009, 5,1%. A inflação, que em 2002 (ano em que teve fim a guerra civil) chegava aos três dígitos, hoje está bem mais controlada e registrou alta de 11,8% em 2007.
O caso de Vieira não foi exceção. Ele conta que seu principal estímulo foi a possibilidade de iniciar uma carreira internacional com uma remuneração em moeda forte (dólar). Além do aspecto financeiro, contribuiu também o fato de poder ter a oportunidade de trabalhar em um nível de gestão mais alto do que sua posição no Brasil possibilitava. “Como consultor do Ministério da Saúde local, tenho interlocução direta com o primeiro escalão da gestão de saúde do país e, com isso, estou aprendendo bastante”, conta. Por fim, o pacote de benefícios deu um empurrãozinho extra rumo à África: Vieira dispõe de quatro viagens internacionais por ano, com 15 dias de férias em cada uma.
Aprendizados para a profissão e para a vida
A possibilidade de assumir projetos que não conseguiria encabeçar no Brasil por conta do pouco tempo de carreira foi determinante para o arquiteto Lucas Simões, de 28 anos. Contratado por angolanos, ele foi o profissional responsável por prédios residenciais, dando um salto qualitativo na carreira que certamente demoraria mais tempo para ser atingido por aqui.
Simões, que passou duas temporadas de uma semana no país, conversou com colegas que já tinham atuado por lá e se preparou para a falta de estrutura, muito comum em Angola. Mesmo assim, não deixou de se surpreender com algumas precariedades, como falta de energia e de água. “A estrutura ainda é bem primaria ainda, tudo está sendo construindo”, diz. O arquiteto relembra que seu maior choque, no entanto, esteve relacionado aos aspectos visuais. “Achei a cidade muito pobre e destruída. Além disso, percebe-se também que a diferença social é enorme, e que o custo de vida não é compatível com a renda da população”, afirma.
As dificuldades enfrentadas pelos angolanos são amenizadas por pequenas ilhas de prosperidade, onde moram os estrangeiros. A integração entre os povos ainda não é uma realidade. “Os brasileiros que vão trabalhar por grandes companhias acabam morando em condomínios construídos para esse fim, o que prejudica o contato com a população e cultura locais”, explica a consultora Mariana.
Nesse sentido, Simões é um ponto fora da curva. Afinal, conhecer uma cultura nova e com ela interagir foi outro motivo que o levou à África. “Percebi que os estrangeiros vivem em guetos, com medo de se misturar com os angolanos, por pura falta de conhecimento cultural”, relata. O arquiteto acredita que esse cenário está atrelado às reais motivações que fazem as pessoas aceitarem suas empreitadas. “Quase todos estão lá para ganhar dinheiro enquanto der, ninguém que eu conheci de estrangeiro está lá para construir um país para passar o resto da vida”, conta, com ar de frustração.
Preocupação com mercado financeiro e supermercado
O administrador Hélcio Pereira da Cunha é outro brasileiro que está em Angola para reconstruir o país. Literalmente. Gerente financeiro de uma empresa angolana da área de construção civil, ele está há três meses em terras angolanas e não tem previsão de volta. Como ele mesmo diz, trata-se de uma aventura, na qual tudo é absolutamente diferente.
No ambiente de trabalho, ainda está se adaptando a novos colegas, escritório e rotinas. “Isso já era esperado. As diferenças culturais são enormes e, trabalhar em outro país, qualquer que seja, requer adaptações dessa natureza”, explica. Todavia, os dias de Cunha têm sido preenchidos por outras preocupações, que não constavam no script. “Hoje eu preciso me preocupar até com a água que utilizarei para escovar os dentes”, diz ele, que também sofre com o desabastecimento nos supermercados. “Há um mês não encontro Coca Light”, queixa-se. Antes de chegar ao país, tinha medo também da violência que, de fato, é um gargalo a ser superado. Para se ter uma idéia, o país ainda convive com oito milhões de minas terrestres deixadas pela guerra. A explosão destas minas ainda mata ou fere 300 pessoas por ano. Mas o administrador encerra a conversa com um tom otimista: “tudo aqui acontece muito rápido e acredito que em cinco anos a Angola será outra, bem melhor”.
E as mulheres?
Não, elas não têm tanta voz ativa assim. Que o diga a turismóloga Lara Rossetti Bruno. Ela, que morou de abril a junho de 2008 em Luanda para trabalhar na organização do segundo Congresso Africano de Estradas, era peça rara por lá. “Na grande maioria das reuniões, eu era a única pessoa do sexo feminino da mesa”, diz. Lara conta não ter sentido preconceito, mas sentiu olhares de soslaio e desconfiados pelo simples fato de ser mulher.
Com o tempo, ela se acostumou a ser observada por todos os lugares por que passava. Ela até esperava reações dessa natureza, tanto que nem se incomodava. Mas o que mais chamou sua atenção, e ficará guardado para sempre em sua lembrança, são os sorrisos dos angolanos. “É um povo que sofreu por mais de 25 anos de guerra e ainda mantém uma esperança incrível de uma vida melhor”, explica. Uma análise um pouco mais aprofundada pode revelar semelhanças entre brasileiros e angolanos que muitas vezes são ofuscadas pelas diferenças mais óbvias e concretas que saltam aos olhos.
fonte: CanalRH - www.canalrh.com.br


